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O tempo de urgências
Texto publicado em 11/07/2014

Um conhecido provérbio, cuja origem atribui-se a muitos, diz que não há vento favorável para aquele que não sabe aonde vai – Por um bom tempo eu pensei que esse provérbio fosse chinês, mas depois de pesquisar sua possível autoria eu não só descobri que ela é atribuída a autores diferentes, como também sua forma escrita não é uma unanimidade. 

Gosto da sabedoria dos provérbios e dos versos curtos. Existe sempre uma grande quantia de conhecimento condensada nas palavras enxutas. Ainda que com o tempo se perca sua originalidade e autoria. Aliás, é bom mesmo que se perca. Que as palavras sejam substituídas, traduzidas, questionadas; é o tempo que legitima uma verdade, não um arranjo de palavras. Nosso dia-a-dia é que tem a propriedade de dizer o que somos. Não nossas palavras. Palavras se enganam. Escolhas não. Somos aquilo que priorizamos. Aquilo que justifica o que deixamos pra trás. E nossa história, pessoal ou coletiva, se escreve a partir dessa dinâmica de escolhas. E mesmo que no futuro as palavras sejam alteradas, ou substituídas por outras, a verdade do que somos estará sempre naquilo que escolhemos fazer. E hoje, o que é fato, é que somos muito urgentes.

Seja pelas demandas sociais ou do mercado de trabalho – ou de ambas –, certamente que nunca fomos tão apressados como nos tempos atuais. E as reais causas de tudo isso já se perderam em um emaranhando de razões e justificativas impossíveis de se desentrelaçar. O Joio já abraçou o trigo. Alguns aspectos de nosso cotidiano já não são mais contingências transitórias, mas realidades permanentes. O homem contemporâneo já não pode mais esperar. 
A velocidade com que tudo deve acontecer é cada vez maior. Já é vital ser rápido. A pressa deixou de ser inimiga da perfeição e passou a ser da vida. Foi rebaixada de status. Precisamos reduzir em tudo. Mais com menos. Sempre. 

Novamente reitero: não vale a pena debruçar-se sobre essa questão puramente em si. Mas em seus detalhes. Nas nuances que afetaram nossa forma de vida em sociedade, no trabalho, nas relações. Existe um risco muito grande em viver apressadamente. E aqui tomo por base as reflexões do professor Mario Sergio Cortella, que sabiamente aponta como as demandas do mundo atual nos convocam à velocidade e não à pressa – A linha é tênue, mas esconde um abismo.

Meu superior quer sempre que eu entregue meus relatórios o quanto antes, assim como qualquer projeto e desenvolvimento que eu esteja envolvido. Todavia, ele sempre espera de mim a clareza e a objetividade. Ele não quer ver, (mas não quer mesmo!) O espaço para a dúvida. A lacuna que denuncia uma urgência, e abriga, com facilidade, o equívoco. E tudo isso, pelo simples fato de não termos mais tempo a perder. 

Todo retrabalho é danoso. Aliás, eles já não são mais considerados. O essencial já está com suas margens reduzidas; o erro perdeu o lugar. Essa é nossa realidade. Nosso mercado. Nossas relações. O século XX esboçou nosso futuro e o século atual vem contornando, em definitivo, esse modus operandi de vida. Talvez em tempos mais remotos, a excelência tenha sido uma vaidade. Hoje ela é questão de sobrevivência. É ISO. É arroz com feijão. É básico. E apenas os mais adaptados vão sobreviver. Darwin tinha razão. É um processo natural. O que nos cabe hoje, frente a uma desaceleração impossível, é justamente sermos mais velozes, e não apressados. 

Quem sabe o que quer costuma ser mais rápido no trajeto. Mais certeiro. Sabe aproveitar os ventos que sopram. A sociedade de hoje é repleta de possibilidades e recursos. O capitalismo moderno permitiu que tivéssemos o P, M, G, GG, o azul, azul turquesa, bebê, piscina, a entrega em domicílio, o cartão de credito, o macarrão instantâneo, enfim, um mundo de opções. E não há nada pior para quem tem de escolher, do que o infinito de possibilidades. 

Toda escolha implica em perdas. Escolher é abrir mão. É responsabilizar-se. Porém, somos estimulados ao contrário. O impulso que temos é o da experiência sem fim. Experimentar sempre; abrir mão nunca. Nossas urgências nascem daí. Acordamos endividados com o tempo. E o que é pior, convencionou-se, equivocadamente, certo valor e status de nobreza a isso. Quanto mais você se mexer, melhor. A onipresença tornou-se uma meta. 

Não repudio quem quer trabalhar muito. Tampouco faço juízo disso. Acredito mesmo no valor do trabalho e não tenho dúvida de sua importância. Mas sei que preciso sempre estar refletindo nas escolhas que ando fazendo. Facilmente posso me tornar urgente demais em minhas atividades e atropelar etapas importantes de um processo. E esse é o meu processo! Saber bem o que quero para não perder tempo no que não quero. Evitar rodeios. Tentativa e erro. Escolher por opção e não por falta dela. 

O profissional do futuro é aquele que o mercado não formou ontem, mas já o demanda hoje, o profissional crítico, criativo. Literalmente sustentável. Que banca mesmo aquilo que escolhe e sabe de fato o quer. Um profissional que antes de qualquer coisa, sustente suas próprias convicções. Que tenha identidade antes de currículo. Caráter. Autonomia. O fenômeno da globalização veio para tornar o mundo um lugar diferente e menor. É imprescindível, que a partir daqui, consigamos nos localizar melhor dentro de nossos próprios desejos. Do contrário, nossas escolhas serão sempre uma fuga daquilo que repudiamos, e não um impulso na direção de nossas realizações. 
 
“Aquele que sabe o que quer, qualquer vento lhe será favorável”

Jonas Vieira
Escritor, Palestrante
jonasvieira50@gmail.com      

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